Síndico no condomínio das emoções

30/11/2018

Este artigo é dedicado aos síndicos que assumem o compromisso de representar os anseios de uma comunidade condominial, zelando pelo bem-estar e qualidade de vida dos moradores.

Na minha observação como auditor e instrutor de cursos condominiais, sobre o dia a dia do sindico, cheguei conclusão que o seu maior desafio na atualidade é fazer a gestão no condomínio das emoções, ou seja, as maiores demandas não estão nas manutenções, segurança, finanças, etc., mas na lida com os rompantes emocionais imprevisíveis de cada condômino, pois esta competência relacional, não se acha nos manuais da construtora, nos livros de legislação ou nas regras da convenção.

Estudos psicológicos, apontam quatro emoções universais, sendo, a alegria, o medo, a tristeza e a raiva, toda emoção mesmo sendo um processo interior, sua identificação e possível pelas expressões faciais, as emoções são importantes, pois são elas que nos levam a "ação", por exemplo, diante do medo, o "enfrentamento" ou a "fuga", já na alegria, agimos de forma afetuosa e altruísta e assim por diante.

Diante deste preambulo emocional, fico me questionando, qual a emoção que está por traz dos bate-bocas nas assembleias? Na comunicação truculenta nos grupos de WhatsApp? Na violência física sofrida por síndicos e moradores? Nas centenas de processos judiciais movidos por condôminos? Nos ataques sorrateiro a honra e a imagem do síndico e nas picuinhas do conselho? Todos estes casos tendo como agente os próprios vizinhos e moradores de uma mesma comunidade condominial.

A resposta é clara depois que se estuda a natureza das emoções humanas, o agente motivador de tudo isso é uma emoção chamada "raiva". Nossa sociedade esta doente e o "vírus" da raiva tem infectado pessoas das mais diversas classes sociais, profissões, e faixa etária, com o efeito urbano chamado "condomínio", muita gente infectada estão residindo nestas comunidades, exigindo do sindico uma dose de "inteligência emocional", para ser usado como antidoto e assim lidar com estas pessoas sem precisar ficar doente também.

Precisamos entender que por traz dos acessos de raiva dos condôminos, muitas vezes "interiorizada" por meses até explodir nas assembleias, ou liberadas no dia a dia via WhatsApp ou presencialmente através de grosserias, fofocas e "disque me disque", não tem ligação direta com a gestão do sindico, mas são resultado de frustrações pessoais do condômino.

Estas frustrações podem ter relação com a expectativa diante da compra de um empreendimento na planta, portanto, a raiva direcionada a construtora é descarregada sobre o sindico; Outros motivos para tanta raiva, são frustrações e pressões que o condômino sobre no trabalho, no transito, na família, na correria da vida moderna, em fatores como dormir pouco, sedentarismo, baixa libido, má alimentação e transtornos de ansiedade.

A raiva é sentida mais intensamente no condomínio, pois sendo o prédio a casa do condômino, este se sente a vontade para tirar sua "máscara social" e mostrar ao sindico o seu "eu raivoso", reprimido durante todo o dia nos demais ambientes sociais.

Para o sindico não padecer emocionalmente no convívio com essa triste realidade condominial, onde a raiva é a motivadora de muitas renuncias, destituições e até casos de desenvolvimento da síndrome de burnout, patologia que leva a "despersonalização " de diversos profissionais que lidam com o publico em um ambiente estressante, sendo o sindico uma figura muito exposta e sem nenhum tipo de cobertura da previdência, ou do sistema social, deve ter todo o cuidado com sua saúde emocional.

Quero finalizar este artigo apresentando uma ferramenta para atenuar os efeitos dos "detritos emocionais" dos condôminos descarregados sobre os síndicos e gestores diariamente, trata-se o uso da "inteligência emocional".

Por inteligência emocional, entendemos as cinco competências para ser bem sucedido na gestão do condomínio das emoções:

  • Auto conhecimento, o sindico deve saber quem é como pessoa, seus valores, suas crenças, sua espiritualidade, suas limitações, suas motivações e principalmente conhecer com profundidade o que é ser sindico de verdade.
  • Auto controle, Em meio a um condomínio de loucos, alguém tem que manter a sanidade, cuidar da saúde mental; Buscar o autoconhecimento é o segredo para alcançar o auto controle.
  • Auto motivação. O sindico deve buscar entender o que lhe motiva nesta função obstinada, ser sindico é quase um sacerdócio, é uma vocação, ligar com pessoas e aprender todos os dias tem sido a motivação de muitos síndicos, além do fator financeiro.
  • Empatia. Compreende a emoção do outro sobre a ótica holística, entender que cada pessoa é única e que responde de forma singular a cada sentimento.
  • Sociabilidade, competência para lidar com os mais diferentes tipos de pessoas, com habilidade para solucionar conflitos e ligar com as emoções do grupo.

Como podemos observar, das cinco competências acima, três são voltadas para o "eu" e duas para o "outro", ou seja, o caminho para compreender o outro, passa necessariamente pela compreensão do eu, pelo autoconhecimento.

Sindico, continue firme neste chamado a justiça, a retidão e ao que é certo, olhando sempre para frente, porem sem esquecer de olhar para dentro.

Prof. Odimar Manoel é Auditor Condominial, já atuou como Sindico Gestor Profissional em condomínios Home Club´s de grande porte em Balneário Camboriú e Joinville / SC, graduação tecnológica pela Unisociesc em Processos Gerenciais e pós-graduando em Auditoria e Pericia Contábil pela FAEL. É instrutor de treinamentos condominiais e socio da Upcondo Auditoria  e Treinamento, autor de vários artigos publicados em revistas especializadas e web sites de conteúdo condominial.